Era vespertina a luz que clareava Belém. Não era a Belém da Judéia, muito menos a Belém de José, mas de acordo com os tratados nas cartas aeronáuticas pousei em Belém, a bela capital do Pará, a Mairi dos Tupinambás. Urbe enorme espraiada na Baía do Guajará, de ventos fortes e chuvas torrenciais que, no anticrepúsculo da pontual latitude, o intenso calor mais tropical do que termal faz todas as cidades se parecerem iguais. Que recepção carinhosa e calorosa dos belenenses e, quanto esforço para acolher bem os amigos que os visitava, venceram. Cheguei sedento de reencontrar o mesmo silêncio vazio que facilita a reflexão e a observação, mas também com a decisão de reverberar com os velhos e novos amigos as histórias que carregamos em nossa linha do tempo. Havia intrínseco sentimento autóctone do saudável encontro comigo mesmo, com minhas raízes amazônicas, de afastar-me da zona de conforto ladino para revisitar a solidão positiva, na busca de enxergar o meu ‘eu’ narcisista. De libertar-me da ansiedade nociva ao laborar o consistente progresso para isolar todos os lamentos senis. E, na sexta-feira, ao vislumbrar o Sol no Levante senti intensa gratidão, propus-me a servir, a colocar às mãos à obra, sei que exagerei ao por o braço no fogo, e queimei. Mas como conhecedor de que o fogo é o grande transformador, decidi desligar a dispersão negativa e o desânimo, desconstruir o tosco olhar pós-moderno que, ainda insiste em reforçar o meu ego, quando teimo parecer quem não sou. De volta para casa muitos amigos belenenses foram ao aeroporto, demos tantos abraços, ouvimos recomendações e manifestações de carinho. Mas Xangô deu o seu recado. Voltei mais liberto do culto às personalidades, do irresistível primeiro plano nas fotos, do mundanismo intelectual das metrópoles, dos afagos num ego carente de amor, que, quase sem luz, se arrasta entre o gentio, sedento por fáceis e enganosos elogios, ante o estourar do flash da câmera indiscreta.
(Izidius, o romano).

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