Naufrágios e malárias, cheias e
vazantes na Amazônia são fenômenos endêmicos há séculos. Ao acompanhar pelos
veículos de comunicação os relatos das autoridades e dos sobreviventes de mais
um naufrágio na região amazônica, acontecido no dia 21 de dezembro de 2009 com
o barco motor Almirante Barroso que tombou ao bater num banco de areia, próximo
a cidade de Monte Alegre/Pará, no rio Amazonas, verifico que é grande o
registro de naufrágios nas bacias destes grandes rios. Anualmente, contingentes
consideráveis de vidas humanas são ceifadas por afogamentos ou devoradas pelos
peixes, sem que sejam indiciados e condenados os responsáveis por estes trágicos
acidentes. Umas das causas frequentemente apontadas pelas autoridades e pelos
sobreviventes é a superlotação. Os barcos geralmente carregam um número muito
maior de passageiros e todos os tipos possíveis de cargas acima do permitido
pelas normas de navegação nos rios da Região Norte. Para o cidadão comum
torna-se fácil apontar os maiores responsáveis por estas tragédias amazônicas ¬
os armadores inescrupulosos; os comandantes dos barcos que são coniventes com a
ganância dos armadores; a Capitania dos Portos que não fiscaliza; a certeza da
impunidade; a obsoleta tecnologia usada na construção dos barcos, e a imperícia
dos timoneiros. Navegam nas doces águas dos rios amazônicos uma das maiores
frotas de barcos do mundo, portanto, se torna inaceitável que a Capitania dos
Portos, do estado do Amazonas ou do Pará, dizerem que não tem recursos para
fiscalizar tamanha frota. Assim justificando, mostram o tamanho do atraso, da
inércia e descaso do Estado brasileiro, cito o Ministro dos Transportes e
os Capitães dos Portos destes importantes Estados. Os armadores movidos pela
inconsciência e insaciável desejo do lucro não medem às consequências
autorizando que barcos de suas propriedades naveguem com cargas acima do
permitido e, junte-se a este caos, a certeza da impunidade. Não se tem
conhecimento da responsabilização e condenação de armadores por estes
acidentes, condenados são os mortos e as famílias que perdem seus provedores e
entes queridos. Por esses motivos condeno o mercantilismo dos armadores, mas
também compreendo que vivemos num mundo capitalista, pressionados pela lógica
perversa do ‘ter’ cada vez mais e ‘ser’ cada vez menos, interessando apenas o
lucro. O sistema hidroviário amazônico vive uma dicotomia ¬ A Capitania dos
Portos diz que fiscaliza e os armadores dizem que cumprem as normas. Seria
cômico se não fosse trágico o que ocorre nos portos improvisados ou não, dos
Estados do Amazonas e do Pará, nos períodos de comemorações de festas regionais
e nacionais. Como percepção desta realidade, cito como exemplo, o improvisado
acesso de passageiros rotulado Manaus Moderna que de moderno nada tem, que
afronta todos os conceitos de engenharia, urbanidade e respeito à cidadania,
como também o porto privado de Manaus, antigo rodway da Manaós Harbour Limited.
Neste porto, há centenas de barcos atracados no terminal flutuante e milhares
de passageiros embarcando, comprimindo-se, acotovelando-se, disputando um
micro-espaço em redes, instaladas umas ao lado das outros como se fossem gado
num reduzido piquete, com péssimas condições de higiene e ventilação, e o pior,
com reduzidíssimas condições de segurança. Este cenário induz alusão ao óleo
sobre tela "Guernica", do pintor espanhol Pablo Picasso, e, mais
latente em nossa história e entranhas, aos Navios Negreiros. Por que não se faz
a fiscalização no píer evitando a superlotação? Como se explica a ausência da
Capitania dos Portos no píer? Não fiscalizar interessa somente aos armadores ou
serve a outros interesses? Por que dispensar este tratamento aos usuários como
se fossem cidadãos de segunda? Quando serão ouvidos os gritos roucos destes
irmãos quando pedem socorro? Quando serão punidos os responsáveis por estes
trágicos acidentes. Os brasileirinhos do Norte do Brasil não têm outras
condições viáveis e econômicas para transitarem na região, os rios são as
estradas deste grande Continente Aquático. A Justiça no Brasil precisa ser
desvendada e, quando cair à máscara, conseguirá dar a cada um o seu quinhão,
enxergará a todos sem distinções de cor, credos, raças, religiões e poder
econômico. Cada vez mais se torna inaceitável a continuação da Odisseia de
Náufragos Latinos.
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