Em 28 de junho de 2012 na Rússia, o Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco
(Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura das Nações Unidas) surpreendeu
a muitos brasilienses ao revalidar mesmo sob críticas o título à capital
federal como Patrimônio Mundial da Humanidade. Os integrantes do comitê
aprovaram o documento baseado em relatório produzido em março de 2012, e monitorado
pelos consultores, Luis Maria Calvo, Carlos Sambricio e pela coordenadora da
UNESCO no Brasil, Jurema Machado, não concordo com a aprovação do relatório por ter dúvidas sobre a lisura aplicada nesta avaliação. A cidade aos 52 anos de
idade está aceleradamente envelhecida, sofrendo constantes crises de TPM que
lhes causa visíveis descaracterizações em seu projeto original, notadamente nas
invasões de áreas públicas no Lago Norte; nos puxadinhos de bares nas Asas Sul
e Norte; nos blocos residenciais com pilotis cercados; nas coberturas
irregulares; na falta de estacionamentos na área central da cidade, na rede elétrica
aérea e nas invasões de ‘new rich’ na orla do Lago Paranoá. Os invasores ocupam
conscientes, licenciosos e arrogantes as belas margens do lago artificial,
destinadas no projeto original ao usufruto de toda a população brasiliense, mas
hoje transformada em áreas exclusivas desses privilegiados. Os moradores
invasores da orla do Lago Paranoá não estão sozinhos nesta licenciosidade,
contam a mais de 30 anos com a leniência do governo do Distrito Federal que tem
o dever de cumprir e fazer cumprir as leis que impedem construções até 30
metros de suas margens. O Lago Norte, constituído por 5.776 lotes é uma das
áreas mais caras e nobres de Brasília e têm 99% dos terrenos em situação
irregular, conforme conclusões de um mapeamento feito através de imagens de
satélite e elaborado pela AGEFIS. O estudo mostra que espaços públicos da península
do Lago Norte estão cercados e ocupados por churrasqueiras, piscinas, canis e acesso
privativo a orla do lago. A infração mais recorrente é o cercamento de áreas
verdes e construções além do limite permitido para a orla. Em nota, a
Administração do Lago Norte informou que não tem autonomia para fiscalizar os
lotes da região administrativa, mas apenas dar licenciamento. Geraldo Magela,
Secretário de Habitação do governo de Agnelo Queiroz (PT-DF), repete o mesmo
discurso vazio de gestores anteriores e faz preocupante mea-culpa, ao dizer que, "tem conhecimento do levantamento feito pela AGEFIS, embora ainda não o tenha
recebido", e continua “É um erro tratar só
do Lago Norte porque é uma situação presente em diversas cidades do DF.
Praticamente todo o Distrito Federal tem cercamento de áreas verdes e isso é
irregular. Não se pode construir nessas áreas. Se formos observar, essa prática
existe no Lago Norte, Lago Sul, Sobradinho, Taguatinga, Guará, Cruzeiro, Park
Way e outras cidades” Ao fazer uma reflexão sobre o ‘desordenamento urbano’
na área de 5.802 km² considerada “Brasília” e os 112,5 km² que reconfirmou o
título de Patrimônio Mundial da Humanidade, me reportam a cinco interrogações: Por
que não é citada nas críticas da UNESCO a restituição da orla do lago para a
comunidade brasiliense; por que não é citada a eliminação de invasões de áreas
públicas no Lago Norte; por que a administração do Lago Norte tem autonomia
para licenciar os lotes da região, mas não tem autonomia para fiscalizar; por
que Magela cita as regionais de Sobradinho, Guará, Taguatinga e Cruzeiro mesmo não
estando inseridos nas poligonais de avaliação do comitê da UNESCO; em quais
critérios de lisura a UNESCO revalidou o título à Brasília, embora a capital
federal esteja aceleradamente descaracterizada em seu projeto original.
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