Ao ouvir palavreado chulo do presidente Lula no dia 10
de dezembro de 2009 na cidade de São Luís, capital do Maranhão, durante cerimônia de lançamento do programa “Minha Casa, Minha Vida”, ao dizer que, “eu não quero saber se o João Castelo é do PSDB,
eu não quero saber se o outro é do PFL, eu não quero saber se é do PT. Eu quero
saber se o povo está na merda, eu quero tirar o povo da merda em que ele se
encontra. Esse é o dado concreto”. Ao ouvir tamanha ignomínia do vernáculo, veio
à memória uma experiência vivida numa viagem realizada no mês de fevereiro
de 2007 no trecho marítimo de Belém à Manaus. Viajava no navio Clívia com toda estrutura em ferro e fabricado no ano de 1911, a belonave era dotada de três
pavimentos para passageiros e porão para cargas. O terceiro convés possuía uma pequena sala de comando e mais dezesseis minúsculos camarotes com
ar-condicionado central. Este convés era dotado de minúsculos banheiros/sanitários, sem tratamento dos excrementos humanos que eram jogados diretamente no
rio, e transformados num ambiente fétido e nauseabundo; um bar conjugado a uma área de
lazer com cadeiras e mesas, onde imaginei que poderia fazer leituras de
livros que conduzia, e extasiar-me com o belo reino das águas. Ledo engano, o
bar funcionava das 08:00 as 22:00, lotado de passageiros, todos inebriados por
músicas de péssimo gosto musical com letras de duplo sentido e forte apelo emocional, do conhecido canto chorado ao amor fracassado, e com volume acima de 80 decibéis, sonoridade que
não permitia de lugar algum apreciar o silêncio da natureza. No segundo convés, mais seis camarotes e dezenas de redes
instaladas, coladas umas nas outras. No primeiro convés, instalado mais dezenas
de redes, um banheiro e sanitário coletivo que atendia os dois pavimentos, o
acesso à casa de máquinas, um minúsculo refeitório que atendia a todos os
passageiros, e a cozinha, ambientes dominados pelo excessivo e intermitente
ruído dos motores. No refeitório, a presença de animais domésticos enjaulados
durante os cinco dias de viagem e sem a mínima higienização, transformando o
lugar num ambiente barulhento e fétido. No porão de cargas, enorme quantidade de gêneros
alimentícios, máquinas, móveis, gases, materiais de construção e equipamentos.
A convivência com garimpeiros, seringueiros, caboclos, índios, contadores de
histórias, prostitutas, mentirosos, e aventureiros, desenvolveu-se de forma
amistosa e cordial, mostrou-me a riqueza desses tipos humanos, cidadãos
brasileiros que vivem a margem dos direitos constantes em nossa Carta
Constitucional, entregues a própria sorte ao flutuarem na subida e descida das
águas, e recebendo um tratamento humilhante. Causou-me perplexão o
comportamento silencioso dos passageiros que demonstravam aceitar passivamente
aquela prestação de serviços, possivelmente por não vislumbrarem outra
realidade, contentando-se resignadamente como único meio e fim de suas vidas.
Ao fazer uma auto-análise percebi minha semelhança com aqueles irmãos
amazônidas, senti na pele como é ser tratado como se fôssemos raia miúda, a
plebe rude. Naquele ambiente encontravam-se todos os movimentos sociais, movimento
dos sem terras, dos sem tetos, dos sem vitórias, sem esperanças, sem escolas, sem
trabalhos dignos, e sem saúde. Como constatação da enorme carência de educação
doméstica e cultura ambiental, lançavam ao rio Amazonas por sobre a
balaustrada, todo lixo da sociedade de consumo, desde as latas de bebidas,
sacos e garrafas plásticas, a embalagens de alimentos industrializados. Ao ver estas
cenas que a princípio causaram-me enorme indignação, perguntei-me. Quando
serão tratados com palavras e ações dignas, e deixarão de beber água
poluída por lixo e dejetos humanos?
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